Por que sua pesquisa de clima nunca vai detectar um funcionário com depressão
Por Dany Wendel, Psicólogo, Cofundador e Diretor Clínico da Evolue (CRP 16/9335)
A pesquisa de clima da sua empresa acabou de sair. Engajamento estável, satisfação acima da média, liderança bem avaliada. O dashboard está verde.
Enquanto você lê esse relatório, uma pessoa da sua equipe está respondendo e-mails no automático porque não consegue mais sentir interesse por nada. Acorda cansada, trabalha no piloto automático, vai para casa e deita no sofá sem energia para fazer o jantar. Na pesquisa de clima, marcou “concordo parcialmente” em tudo. Pensar em cada resposta era esforço demais. Ou nem respondeu.
Ela não aparece em nenhum gráfico do seu dashboard. Mas daqui a três meses, vai aparecer como afastamento no INSS.
Em 2025, mais de 180 mil brasileiros se afastaram do trabalho por depressão: cerca de 126 mil por episódios depressivos (F32) e cerca de 60 mil por depressão recorrente (F33). É o segundo maior grupo entre os 546 mil afastamentos por saúde mental no ano. Cada uma dessas pessoas trabalhava em alguma empresa. A maioria rodava pesquisa de clima. Nenhuma sinalizou risco.
Isso não é falha de execução. É uma limitação estrutural do instrumento.
Termômetro não mede pressão
Pesquisa de clima mede o que o funcionário acha da empresa. Satisfação com liderança, comunicação, benefícios, crescimento. São perguntas de percepção.
Depressão é o que acontece com a pessoa. Perda de prazer, fadiga persistente, dificuldade de concentração, desesperança, alterações no sono. São indicadores clínicos, e eles independem do que a pessoa pensa sobre a empresa.
Uma coordenadora com depressão moderada pode gostar do trabalho, respeitar o gestor, achar o salário justo. E ainda assim não conseguir sair da cama na segunda-feira. A pesquisa vai registrar satisfação. A depressão vai continuar invisível.
Usar pesquisa de clima para avaliar saúde mental é como usar termômetro para medir pressão arterial. Os dois instrumentos são legítimos. Mas medem coisas completamente diferentes.
O que a depressão faz com um formulário de pesquisa
O problema vai além de a pesquisa fazer as perguntas erradas. A depressão sabota cada etapa do processo de resposta.
Primeiro, tira a energia de responder. Abulia (falta de vontade) e anergia (falta de energia) são sintomas frequentes da depressão. Não consequências, sintomas. Abrir um link, ler 40 perguntas, refletir sobre cada uma… quando a pessoa está funcionando no limite, isso parece impossível. Pesquisas organizacionais no Brasil já têm entre 27% e 50% de não resposta em condições normais. A pessoa com depressão está desproporcionalmente nesse grupo. Não por desinteresse. Por incapacidade.
Depois, distorce o sentido de responder. “Não vai mudar nada.” “Minha opinião não importa.” “Tanto faz.” Para quem lê de fora, parece cinismo ou apatia. Para quem conhece o quadro clínico, é desesperança, uma das manifestações centrais do humor deprimido na depressão. A pesquisa interpreta como não resposta ou como “neutro”. Na verdade, é um sintoma gritando em silêncio.
Se a pessoa responde, responde mascarada. A depressão carrega vergonha. A pessoa já se sente um fardo no trabalho. O último impulso que vai ter é sinalizar fragilidade num formulário que, na cabeça dela, pode ser rastreado, mesmo que o RH garanta anonimato. Resultado: “concordo parcialmente” em tudo.
E a pesquisa chega tarde. A maioria acontece uma vez por ano. Pesquisas de pulso trimestrais são melhores, mas a depressão é episódica. Pode surgir e se agravar entre uma medição e outra. Quando a próxima pesquisa chegar, o afastamento já aconteceu.
A consequência é uma invisibilidade quase perfeita. A ansiedade pode gerar sinais visíveis: irritabilidade, agitação, conflitos. O burnout tem marcadores claros: cinismo, queda abrupta de produtividade. A depressão faz o oposto. Desacelera silenciosamente. A pessoa continua entregando, mas com esforço cada vez maior. Colegas veem “uma fase”. O gestor vê “desmotivação”. Ninguém pensa em depressão, porque o deprimido, no imaginário popular, é alguém que não sai da cama. Na prática, a maioria vai trabalhar todos os dias. Cada dia custa mais.
Agora, compare o que a pesquisa de clima pergunta com o que seria necessário perguntar:
“Você se sente valorizado pela empresa?” Pesquisa de clima.
“Nas últimas duas semanas, com que frequência você sentiu pouco interesse ou prazer em fazer as coisas?” PHQ-2, um dos instrumentos mais usados no mundo para rastreamento rápido de depressão.
Uma pergunta mede opinião sobre o empregador. A outra mede anedonia, que é a perda da capacidade de sentir prazer, o sintoma cardinal da depressão. Uma pessoa pode responder “sim” para a primeira e estar com a segunda no nível crítico. A pesquisa de clima só registra a primeira.
Maria
Maria tem 38 anos, é coordenadora de projetos numa empresa de médio porte. Nome fictício, perfil real.
Na pesquisa de clima de setembro, marcou “concordo parcialmente” em quase tudo. Nenhum alerta.
Em outubro, perdeu o interesse nos projetos que antes a empolgavam. A apresentação que preparava com entusiasmo virou obrigação. A empresa mandou pesquisa de pulso por e-mail. Maria viu a notificação, pensou “não vai mudar nada” e fechou. Não dormia direito, mas atribuía ao projeto grande.
Em novembro, começou a se isolar. Reuniões evitadas, mensagens respondidas com atraso, tarefas simples levando o dobro do tempo. Lia o mesmo parágrafo três vezes. O pensamento autocrítico ganhou volume: “estou falhando”, “não sou boa o suficiente”. O gestor interpretou como desmotivação de fim de ano.
Em janeiro, licença médica. F32, episódio depressivo. Quatro meses afastada.
Maria era uma das centenas de “respostas neutras” que compunham a média satisfatória. Uma das mais de 180 mil.
O problema que pesquisa de clima não tem como resolver: de onde vem?
Mesmo quando a pesquisa de clima detecta que algo está errado (o engajamento caiu, a nota de liderança despencou), falta a informação que realmente importa para agir: de onde vem o problema.
“Engajamento caiu 3 pontos no departamento comercial.” E agora?
Caiu porque há depressão por sobrecarga de metas? Porque o gestor é abusivo? Porque houve reestruturação mal comunicada? Ou porque metade da equipe está passando por crises pessoais (divórcio, doença na família, dificuldade financeira) que não têm nada a ver com a empresa?
A resposta muda completamente a ação necessária. Depressão por sobrecarga exige redistribuição de tarefas e revisão de metas. É responsabilidade direta da empresa. Depressão por crise familiar exige acolhimento e encaminhamento clínico, mas também ações de educação em saúde mental: palestras de esclarecimento sobre depressão, rodas de conversa, canais de suporte que ajudem a equipe a reconhecer sinais e saber como agir. Depressão por conflito com liderança exige intervenção na gestão. Se a empresa não sabe a causa, não faz nada disso.
A pesquisa de clima não faz essa distinção. Trata tudo como “clima”. E a resposta, quando vem, é sempre genérica: palestra de motivação quando o problema é meta impossível, app de meditação quando o problema é gestor abusivo, happy hour quando alguém precisava de encaminhamento clínico há meses.
Saber que algo está errado é o mínimo. O que muda decisões é saber o que está errado, por quê, e se a causa está dentro ou fora da empresa.
O que funciona

Monitoramento contínuo não substitui pesquisa de clima. Complementa com a camada que falta: indicadores clínicos reais, frequência quinzenal e, o mais importante, identificação da origem, distinguindo o que vem de dentro da empresa do que vem de fora.
A Evolue faz isso pelo WhatsApp. A Luna conversa com os funcionários usando a Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers). Não por formulário, por conversa natural. A adesão fica entre 60% e 80%, contra 5% a 15% de apps corporativos. Com supervisão de psicólogos com CRP, o sistema identifica depressão, ansiedade, burnout, isolamento, e se a origem é da empresa ou de fora. O RH recebe relatórios quinzenais assinados por profissional de psicologia: onde está o problema, de que tipo, qual a origem provável, se está melhorando ou piorando.
Dados 100% agregados: o RH nunca vê conversas individuais. Regra de N mínimo: grupos menores que 5 não aparecem. Protocolo de risco: quando necessário, um psicólogo real assume a conversa no WhatsApp.
Voltando à Maria: num monitoramento contínuo, a queda progressiva no humor, a piora no sono, a perda de interesse teriam aparecido nos dados do departamento semanas antes do afastamento. Não com o nome dela. Mas com informação suficiente para o RH saber que algo estava acontecendo, se o problema era da empresa ou de fora, e agir antes que a licença médica fosse a única saída.
O que a próxima pesquisa de clima da sua empresa não vai mostrar
A NR-1 passa a fiscalizar riscos psicossociais com multas a partir de maio de 2026. Exige identificação de riscos que adoecem: estresse, assédio, sobrecarga. “Fazemos pesquisa de clima todo ano” não vai ser resposta suficiente para o auditor.
Enquanto isso, na sua empresa, alguém está marcando “neutro” em tudo porque não tem energia para pensar em cada pergunta. Ou fechando o e-mail sem responder porque “tanto faz”. Essa pessoa tem nome, tem cargo, tem uma equipe que depende dela. E em três meses, talvez vire mais um número entre os 180 mil.
A pesquisa de clima não vai sinalizar nada. Porque não foi feita para isso.
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Monitoramento contínuo de saúde mental: por que dados quinzenais mudam tudo
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Fontes
- INSS / Ministério da Previdência Social. Dados de afastamentos por transtornos mentais, 2023-2025. F32 (episódios depressivos): ~126 mil; F33 (depressão recorrente): ~60 mil.
- ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho). Levantamento com dados oficiais do INSS: afastamentos por saúde mental 2023-2025.
- Kroenke, K., Spitzer, R. L., & Williams, J. B. W. (2003). “The Patient Health Questionnaire-2: Validity of a Two-Item Depression Screener.” Medical Care, 41(11), 1284-1292.
- GPTW (Great Place to Work). Metodologia de pesquisa de clima e benchmarks de participação em pesquisas organizacionais no Brasil.
- Portaria MTE nº 1.419/2024. Inclusão de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO/NR-1).
- Portaria MTE nº 765/2025. Cronograma de fiscalização de riscos psicossociais. Multas a partir de 26/05/2026.
Dany Wendel
Psicólogo, Cofundador e Diretor Clínico da Evolue
CRP 16/9335
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